quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Autobiografia

Admito! Não gosto muito de ler! Não sou aquela pessoa que larga qualquer coisa pra ler um livro. Gosto sim de poesia, mas nada de ler estantes de livros. Porém... não pude resistir ao chamado de um livro!

Estava eu, numa tarde, sozinha na clínica com a companhia de uma música, café e pensamentos... e um livro, que estava há dias na mesa e eu o ignorava como se fosse acessório da mesa, até que aquela hora ele olhou pra mim e resolvi explorá-lo! Quando abri as páginas e comecei a ler, já não tinha mais volta. Enquanto ia lendo, as lágrimas iam rolando e parecia que lia um diário meu.

O nome do livro é "A Cidade do Sol" de Khaled Hosseini, mesmo autor de "O Caçador de Pipas".

De início o livro começa contando a história da Mariam, uma jovem menina de 14 anos cujo pai era Jalil e sua mãe Nana. Nana engravidou de Mariam na época em que trabalhava como empregada na casa de Jalil que já tinha suas 3 esposas. Jalil para se livrar do problema, mandou construir uma casa afastada da cidade para Nana e a bastarda morarem e todas as quintas-feiras Jalil ia até a kolba (casa) para visitar Mariam, levar presentes, histórias e a imagem de herói. Nana nunca cansava de prevenir a filha sobre o mau caráter de seu pai, apesar de todas as atitudes dele para com a filha não demonstrarem isso.
No fundo Nana culpava Mariam pela sua frustrante vida. Dizia que ela bastarda e que as mulheres não tinham o direito de serem felizes, muito menos elas.
Nesses trechos mostra um pouco a paixão que Mariam tinha para com o pai:

"Jalil tinha 3 esposas e nove filhos, nove filhos legítimos, e Mariam não conhecia nenhum deles. Era um dos homens mais ricos de Herat. Era dono de um cinema, que Mariam jamais tinha visto, mas que Jalil descreveu para ela depois de muita insistência da menina. Às terças-feiras, segundo lhe disse Jalil, as crianças podiam tomar sorvete de graça na bombonière. Nana ouviu isso com um sorriso de desdém. Esperou ele sair da kolba para dizer, com uma risadinha:
- Os filhos dos estranhos ganham sorvete. E para você, Mariam, o que ele tem a dar? Histórias de sorvete..."

"No entanto, não havia ninguém, mas ninguém mesmo, que ela gostasse mais de ver do que Jalil. A ansiedade começava nas noites de terça-feira. Mariam dormia mal, com medo de que algum problema nos negócios pudesse impedir Jalil de aparecer na quinta, pois, se isso acontecesse, ela ficaria mais uma semana inteira sem vê-lo. Finalmente, na quinta-feira, tudo o que conseguia fazer era ficar sentada, recostada na parede, com os olhos pregados no riacho, esperando. Se Jalil se atrasava um pouco, um medo terrível ia se apossando dela aos pouquinhos, até que sentia as pernas bambas e tinha de ir deitar em algum lugar.
Finalmente, Nana gritava:
- Pronto, seu pai chegou.
Mariam se levantava de um salto assim que o avistava pulando sobre as pedras do riacho.
Quando ele penetrava na clareira, atirava o paletó em cima do tandoor e abria os braços. Só então a menina se mexia, correndo enfim para ele a pegar por baixo dos braços e jogá-la para o alto.
Lá de cima, via o rosto de Jalil ao contrário e Mariam também podia ver a si própria, refletida nos olhos castanhos de Jalil."

"Quando chegava a hora de Jalil ir embora, Mariam ficava parada na porta e o via se afastar pela clareira, infeliz com a idéia daquela semana inteira que, como algo imenso e irremediável, a separava da próxima visita de seu pai. Prendia a respiração e, mentalmente, contava os segundos. Fazia de conta que, para cada segundo que conseguisse ficar sem respirar, Deus lhe daria mais um dia com Jalil."

Quando Mariam estava prestes a completar 15 anos, pediu a seu pai que levasse ela ao seu cinema com seus irmãos. Ele negou na frente da Nana dizendo que o som era ruim e a imagem também e depois escondido combinou com Mariam de pegá-la no dia seguinte ao meio-dia. No dia seguinte, Mariam vestiu a melhor roupinha que tinha, apenas ficou chateada pelos sapatos não combinarem com o lenço na sua cabeça, mas não tinha outro. Ficou esperando sentada e evitou deitar para não amassar seu vestidinho. No horário combinado foi até o lugar combinado cuidando para Nana não ver e esperou... e nada de Jalil aparecer. Até que a menina ao invés de voltar para a kolba, resolve ir pela primeira vez atrás de seu pai na sua casa da cidade, porém Nana nunca consentiria isso, até dizia que morreria se Mariam a deixasse. Mas Mariam foi.
Chegando na cidade, pediu onde ficava a casa de Jalil e foi lá. Quando chegou na frente do portão, pediu pelo seu pai e o segurança disse que ele não estava, que havia viajado e pediu para que a menina fosse embora. Mariam não foi e ficou esperando sentada na frente do portão. Ficou por lá por dois dias, dormindo na rua e recebendo comida da casa de Jalil que os empregados com pena davam. Até que no terceiro dia, o segurança veio dizer para ela ir embora que o próprio Jalil tinha mandado ela ir. Num súbito ela corre por entre os portões da casa e invade o jardim da casa de seu pai e em questão de segundos viu pela janela o rosto assustado de seu pai vendo a menina correndo no jardim. Nesse momento os seguranças a carregaram a muque, enfiaram a menina no carro e a levaram de volta. Mariam chorou o caminho todo por raiva, frustração, pensando em como foi burra por ter se preocupado com a combinação de sua roupinha. Quando chegou em casa viu sua mãe enforcada.
Devido esse fato, Jalil levou Mariam para viver em sua mansão na cidade junto com suas três mulheres e nove filhos. Mariam ficou as primeira semanas trancada em seu quarto e só saia em casos extremos. Até que um dia, uma das esposas de Jalil convidou Mariam a descer pois queriam conversar com ela. O assunto da conversa era um pretendente de 45 anos que haviam encontrado para Mariam e que ela casaria no dia seguinte, solução perfeita para a bastarda enquanto que as outras meninas das esposas estudavam e não eram casadas ainda.
Nesse trecho mostra a indignação de Mariam em relação a seu pai nesse momento:

"- Diga a elas! - Gritou Mariam.
As mulheres se calaram. Mariam sentiu que todas olhavam para Jalil. Esperando. O silêncio tomou conta da casa. Jalil continuou girando a aliança no dedo, com um ar ferido, desamparado no rosto. Lá do armário, o relógio seguia com seu tiquetaque.
- Jalil? - disse enfim uma das esposas.
Ele ergueu o rosto bem devagar, deu com os olhos de Mariam, deteve-se por um instante, e voltou a baixar os seus. Abriu a boca, mas tudo o que fez foi emitir um único e doloroso gemido.
- Diga alguma coisa - insistiu Mariam.
E então, com uma voz sumida, alquebrada, Jalil exclamou:
- Que diabos, Mariam! Não faça isso comigo! - como se fosse ele a vítima naquela situação."

No dia seguinte Mariam casa-se com Rashid. "O homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos."

Na despedida de Mariam para a cidade em que Rashid morava, o marido no ônibus e Mariam frente-a-frente com Jalil pela última vez:

"- Eu o adorava - disse Mariam.
Jalil parou. Cruzou e descruzou os braços. Um jovem casal de indianos passou entre eles: Jalil pareceu agradecido por aquela interrupção.
- Toda quinta-feira, passava horas sentada, à sua espera. Ficava tão preocupada, com medo de que você não aparecesse...
- Pensava em você o tempo todo. Rezava para que você vivesse cem anos. Eu não sabia. Não sabia que você tinha vergonha de mim.
Jalil baixou os olhos, como uma criança grande, e ficou escavando alguma coisa no chão, com os sapatos.
- Você tinha vergonha de mim - repetiu ela.
- Vou visitá-la - balbuciou ele.
- Não! - Não vá! Não vou recebê-lo. Não vá. Não quero mais saber de você. Nunca, nunca mais.
Ele a fitou com um ar sofrido.
- Para nós, tudo acaba aqui. Pode dizer adeus - disse Mariam"

Essa parte do livro mexeu muito comigo pelos motivos que quem me conhece um pouco entende.
Mas o livro também relatou outra situação que me fez reviver e sentir novamente um sentimento que outrora senti.

Já casada, Mariam ao abrir a gaveta do marido se depara com uma foto dele com sua falecida esposa:

"Debaixo deste retrato, havia um outro. Era uma mulher, sentada, e, por trás dela, um Rashid bem mais magro e mais jovem, de cabelo preto. A mulher era bonita, decerto mais bonita que ela, Mariam. Tinha um queixo longo e delicado e cabelo preto repartido no meio. As maçãs do rosto eram proeminentes e a testa delicada. Mariam pensou no próprio rosto, com aqueles lábios estreitos e o queixo comprido, e sentiu uma pontinha de ciúme.
Ficou um bom tempo olhando para aquela foto. Havia algo vagamente perturbador na forma como Rashid parecia se agigantar com relação à esposa, com as mãos pousadas nos ombros dela e um sorriso satisfeito, apenas esboçado, em contraste com aquele rosto sombrio que não sorria. E a forma como o corpo da mulher se inclinava discretamente para frente, como se ela estivesse tentando se livrar daquelas mãos."

Depois de dois anos de casada, depois de perder o tão sonhado bebê que Rashid quis tanto, o casamento de Mariam estava um caos. Ela vivia pisando em ovos com medo do marido que era ríspido com ela e via defeitos em tudo. Um certo dia, Rashid pegou um punhado de arroz, pôs na boca e cuspiu, indignado. Mariam já começava a tremer. Rashid saiu de casa, bateu a porta e voltou com pedrinhas nas mãos. Disse para Mariam comer, abriu a boca dela colocando os dois dedos na boca, e enfiou as pedras na boca dela. Mandou mastigar aquilo. Mariam tentava dizer que não com as lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos e ele ordenava que ela mastigasse aquilo. Quando ouviu um estalo da mandíbula dela ele parou e disse: "Viu! É esse o gosto da tua comida!" e saiu enquanto Mariam chorando cuspia aquelas pedras, terra, sangue e os pedaços dos molares dela que quebraram.



Bom, acho que já falei demais desse livro!!!


"Assim como uma bússola precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher à sua frente." - Nana

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