terça-feira, 20 de março de 2007

Últimas Palavras

A chuva que caía lá fora era o bastante para me fazer pensar... Novamente.
A madrugada adentrava na noite que se seguia triste e tépida e a lua clara e brilhante, como se fosse a última gota de esperança e vida naquela imensidão negra, insistia em olhar-me e suplicar-me a vida pela janela.
Nada podia outra coisa fazer, se não olhá-la e ignorá-la pela sua frustrante tentativa.
Contarei-vos, portanto, o que se passara a mim:
Minha vida, nada mais era do que um simples capricho da existência. Eu não vivia, apenas existia e não sabia disso.
Acreditava que as coisas que me agradavam eram realmente merecedoras de minha alegria. Mal imaginava eu o quanto me enganava. Eu não sabia viver, pois não tinha por que o fazer.
Todo o universo de devaneios que circundava minha vida veio, pois então um dia a
chocar-se com a realidade. Era a realidade mais linda que pudera suportar! Já o amava...
O peito doía de tanto amor, as lágrimas rolavam de tanta emoção, poderia eu agora viver! Sem que me percebesse, fiquei eu ali a observar-lhe, por um tempo que para mim durou uma vida e que na verdade não se passara um segundo.
Passei a procurá-lo nas ruas, a segui-lo em pensamento como que num ato de extremo desespero. Poderia morrer se assim ele quisesse!
Uma noite, estava eu a contemplar as estrelas, como que procurando nelas um olhar de compaixão que viesse do meu amado. Foi quando olho a minha frente e o vejo observando-me com um quê de curiosidade que podia destruir-me por dentro de tanta felicidade! Se pudesse, nesse momento fazer a Deus um único pedido para toda a minha existência, não hesitaria, desejaria que congelasse esse momento por alguns instantes, para fazer-me o ser mais feliz de todo o universo.
Olhei-o novamente e o vi aproximar-se de mim, seus olhos fitavam o meu, fazendo me arder o coração e sangrar-me a alma.
Estávamos os dois envolvidos por uma magia interestrelar e podíamos jurar eterno amor. Nos olhamos profundamente, como que observando a alma de seu amor e nos beijamos como que selando um juramento de amor eterno. Poderia morrer naquele momento que nada mais me faltaria!
Ele era lindo! Encantador! Único! Trazia nos olhos a vivacidade do amor e nos lábios o alimento e o veneno que ora me alimentava, ora me profanava. Seus olhos tão pequenos e brilhantes eram espinhos que penetravam minha alma e meu coração, provocando-lhes um sangrar invisível, um sangrar tão intenso e amoroso que nunca tinha fim! Seu sorriso maravilhava qualquer ser desse planeta e me jogava para fora da realidade, me atirando na dimensão do amor eterno...
O clarão do relâmpago não era mais intenso do que o que eu sentia em seus braços! O som do trovão não era mais ensurdecedor e intenso do que o bater do meu coração quando me via a seu lado!
Esse amor era mais intenso do que a minha própria vida. E morreria por ele! E morreria feliz como nunca ninguém morreu! Eu o amava mais do que o próprio amor! Viveria na mais absoluta miséria do seu lado, sendo a mais afortunada dos mortais e imortais.
Porém não foi esse o desejo do destino...
No país, naquele mesmo período, estourava-se uma guerra! A mais forte e impiedosa que já se teve notícia, e meu amado, meu pobre anjo tivera que partir com ela! Não suportava a idéia de perdê-lo, não aceitava ver-me longe dele. Ele era minha luz, meu ar, sem ele certamente morreria.
Porém não havia o que se fazer e ele teve que partir...
É essa, pois então, a sina que me acompanha e vela meus tristes dias, pois soube através de um papel impiedoso e cruel, que meu amado morrera em combate e dizia que só ainda respirava aquele ar coberto de dor e sangue, por um amor complacente que o aguardava em vida e o motivava em sonhos...
Neste momento a minha dor foi tanta que meu coração se despedaçou de tal maneira que será impossível reaproveitar qualquer pedaço dele. Somente eu sabia o que se passava no meu íntimo, me encontrava como a mais fraca dos mortais, tão fraca que ninguém poderia saber. Neste momento compreendi que meu amor seria imortal!
O que ontem me fazia divertir, o que me trazia conforto, hoje são as coisas que não me atraem, que me trazem dor e que se tornaram minha vida. Tornei-me um vegetal, imóvel, vivendo de lembranças e sonhos...
Deste amor oculto, não saberás jamais!
Se te amo, e como, e a quanto extremo chega não poderei dizer-te.
Hoje, meu mundo é deserto! É preenchido com uma gelada e insuportável escuridão, da qual faz questão de me assombrar todos os dias. Pessoas desistiram de erguer-me os olhos, apenas os astros ainda o tentam e se pudessem sentir o que sinto, a luz deles apagaria de tanto vazio e frieza que pertence a minha alma.
A luz não existe onde estou... As lágrimas são secas, elas caem de dentro da minha alma perdida.
De todas as mágoas que você pode imaginar ter sentido, nenhuma sequer chegou aos pés de minha lúgubre existência.
A morte é meu fardo...
No sangue meu corre apenas o perfumar do teu cheiro. E como a escuridão do anoitecer se sente a minha alma.
Há de chegar o tempo em que viveremos só de amor e nesse tempo não viverei mais do meu corpo físico.
A chuva que insiste em cair lá fora, como que para abençoar nossa existência, me faz companhia nesta noite fria.
Eu te amo, meu amor! Mas do que isso me adianta? Hoje o que faço é esperar um sinal de compaixão dos céus, para que me levem para junto de ti.
Queria poder ter lhe dito o quanto o amava!
Porém, sei que lá onde a dor se esquece... Onde a luz nunca falece... E onde o prazer sempre cresce...
Lá tu saberás que te amei!

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